Em 15 de agosto de 1971, o presidente americano Richard Nixon tomou uma decisão que mudou o curso da história económica mundial: acabou com a convertibilidade do dólar em ouro. Este evento, conhecido como “choque de Nixon”, marcou o fim do sistema de Bretton Woods, um sistema monetário internacional com paridades fixas que fez do dólar a principal moeda de reserva global.
Depois de mais de 52 anos, as críticas contra esta decisão ainda são persistentes e muitos bitcoiners acreditam que a melhor alternativa continua sendo o uso do Bitcoin.
Neste artigo, examinamos o impacto desta decisão na economia global e até que ponto o Bitcoin é considerado uma solução.
Contexto: Fim da Segunda Guerra Mundial
Em 1944, no final da Segunda Guerra Mundial, foram assinados os Acordos de Bretton Woods, estabelecendo um sistema monetário internacional baseado no ouro. Todas as moedas foram definidas em dólares e apenas o dólar foi definido em ouro, com base em 35 dólares americanos por onça. Isto significava que os Estados Unidos tinham de controlar o valor “real” da sua moeda, evitando ao mesmo tempo deixar o seu orçamento escorregar.
Na década de 1960, contudo, os défices da balança de pagamentos dos EUA começaram a surgir e a aumentar, devido em parte à Guerra do Vietname e à Corrida Espacial com a União Soviética.
Estes défices contribuíram para uma perda gradual de confiança no dólar como moeda de referência.
Os limites de Bretton Woods
Embora os acordos de Bretton Woods tenham contribuído para a estabilização da taxa de câmbio e para a reconstrução económica do pós-guerra, também tinham limitações inerentes.
Uma dessas limitações residia na dependência do dólar americano, que se tornou a principal reserva cambial. Esta concentração excessiva expôs as economias globais à política monetária e económica dos EUA, levando a desequilíbrios e pressões inflacionistas noutros países.
Além disso, o sistema de paridade fixa imposto pelo Acordo de Bretton Woods restringiu a flexibilidade necessária para ajustar as taxas de câmbio de acordo com a evolução das realidades económicas, contribuindo em última análise para a desintegração do sistema na década de 1970.
O paradoxo de Triffin
O Paradoxo de Triffin, formulado pelo economista belga-americano Robert Triffin na década de 1960, destaca um dilema inerente ao sistema monetário internacional baseado numa moeda de reserva, como o dólar americano na altura.
Em seu trabalho Ouro e a crise do dólar: o futuro da conversibilidade publicado em 1960, Triffin salientou que quando o país emissor da moeda de reserva (neste caso, os Estados Unidos) procura excedentes comerciais para aumentar a confiança na sua moeda, isso pode levar a uma escassez de liquidez global e prejudicar o crescimento económico global.
Este paradoxo económico manifesta-se quando as necessidades de liquidez internacional excedem a capacidade do país emissor de manter uma oferta adequada, preservando ao mesmo tempo o valor da sua própria moeda.
Le Paradoxo de Triffin ilustra assim o conflito inerente entre os interesses nacionais do país emissor e as necessidades globais de liquidez, destacando as tensões e desequilíbrios estruturais inerentes ao sistema monetário internacional baseado numa moeda de reserva única.
O “Choque Nixon”: Redefinindo a Ordem Monetária Internacional
Em 1971, o presidente dos EUA, Richard Nixon, tomou uma decisão ousada que teria um impacto profundo na economia global: anunciou a suspensão da convertibilidade do dólar americano em ouro. Isto pôs fim ao sistema de Bretton Woods e desencadeou o que hoje é comumente referido como o “Choque de Nixon”.
Esta decisão foi motivada principalmente por vários factores económicos e geopolíticos:
- Pressão sobre as reservas de ouro: O sistema de Bretton Woods baseava-se na convertibilidade do dólar em ouro a uma taxa fixa. No entanto, vários países, incluindo a França, começaram a converter os seus dólares excedentários em ouro, colocando em risco as reservas de ouro dos Estados Unidos. Esta conversão em ouro criou desequilíbrios nas reservas monetárias e minou a confiança na estabilidade do dólar.
- Déficits comerciais dos EUA: Os Estados Unidos enfrentavam défices comerciais crescentes, em parte devido aos elevados custos associados à Guerra do Vietname e às despesas governamentais relacionadas. Estes défices comerciais resultaram numa saída líquida de dólares dos EUA para outros países, enfraquecendo ainda mais as reservas cambiais dos EUA.
- Inflação galopante: A política monetária expansionista levada a cabo pela Reserva Federal Americana (FED) para financiar a Guerra do Vietname e estimular o crescimento contribuiu para um aumento da inflação nos Estados Unidos. Esta inflação estava a desgastar o valor real do dólar e a criar preocupações sobre a estabilidade da moeda. Desde a crise de 1929, os americanos têm sido muito sensíveis às pressões inflacionárias.
- Manter a competitividade económica: A valorização do dólar num nível fixo face ao ouro limitou a flexibilidade necessária para ajustar a taxa de câmbio para manter a competitividade económica. As empresas americanas encontraram-se em desvantagem no exterior devido a uma moeda sobrevalorizada, o que impactou negativamente as exportações e o emprego.
Em resposta a estes numerosos desafios, Nixon anunciou a suspensão da convertibilidade do dólar em ouro em 15 de agosto de 1971. Esta decisão, embora muito controversa e criticada na época e ainda hoje, permitiu aos Estados Unidos assumir o controlo da sua moeda. política independente das restrições do padrão-ouro e preparou o caminho para a era das taxas de câmbio flutuantes.
Esta decisão histórica marcou um importante ponto de viragem na ordem monetária internacional e teve repercussões económicas, financeiras e geopolíticas duradouras, que sentimos na nossa economia atual.
Repercussões económicas e geopolíticas
O “Choque Nixon” teve consequências profundas. Por um lado, os países confrontaram-se com uma maior volatilidade nas taxas de câmbio, o que tornou as transações internacionais mais complexas. Por outro lado, o dólar norte-americano continuou a ser a principal moeda de reserva, apesar do fim da sua convertibilidade em ouro, o que confirmou a dependência do sistema financeiro global dos Estados Unidos.
O fim da convertibilidade do dólar em ouro levou a uma acumulação vertiginosa de dólares em todo o mundo. Isto permitiu aos Estados Unidos continuar a investir no estrangeiro e a aumentar os seus défices sem receio de desvalorização da moeda. Na verdade, os países de todo o mundo são então forçados a utilizar dólares para o comércio internacional.
No entanto, esta decisão também teve consequências negativas. Enfraqueceu o dólar como moeda de reserva e levou à instabilidade monetária global. Além disso, permitiu aos Estados Unidos financiar as suas múltiplas guerras através da inflação, o que levou a um aumento da dívida pública.
A inflação, que se seguiu ao abandono do padrão-ouro, teve um impacto significativo nas empresas. Aumentou o custo de vida e levou as empresas a investir mais para manter o seu valor real. Além disso, a inflação tornou os investimentos de longo prazo mais arriscados, levando à diminuição do investimento e ao menor crescimento económico.
O Advento das Taxas de Câmbio Flutuantes
O “Choque Nixon” marcou o início da era das taxas de câmbio flutuantes, onde as moedas não estavam mais vinculadas a valores fixos, mas podiam flutuar com base nas forças do mercado. Esta nova realidade transformou os mercados financeiros internacionais e exigiu que os governos e as instituições se adaptassem às novas dinâmicas económicas.
O advento da moeda fiduciária
Cinquenta anos após o fim da convertibilidade do dólar em ouro, o dólar continua a ser a principal moeda de reserva mundial. Contudo, o papel do dólar como moeda de reserva é cada vez mais contestado.
A frase "O que diabos aconteceu em 1971" é frequentemente usada para discutir as consequências de longo prazo desses eventos e como eles influenciaram a economia, a política, a tecnologia e a sociedade moderna.
É também uma forma de refletir sobre a evolução do mundo desde então e de questionar as mudanças estruturais ocorridas.
O fim da convertibilidade do dólar em ouro levou à adopção generalizada da moeda fiduciária, que não é apoiada por um activo físico como o ouro.
Críticas ao sistema monetário tradicional e Bitcoin
Entre as vozes mais altas que condenam a moeda fiduciária estão os apoiadores do Bitcoin. O Bitcoiners mais maximalistas criticar o sistema monetário fiduciário, ou seja, as moedas que não apoiado por um ativo físico como o ouro. O fim da convertibilidade dólar-ouro em 1971 inaugurou a era das moedas fiduciárias, permitindo aos governos criar dinheiro “do nada”.
Autores como Saifedean Ammous consideram que esta liberdade de criação monetária conduziu a desequilíbrios económicos, à inflação e à depreciação das poupanças, o que contribuiu para os actuais problemas financeiros. É por isso que ele é a favor do uso de um novo padrão que seria o Bitcoin.
Leia o artigo : O resumo do livro “O padrão bitcoin” de Saifedean Ammous
Bitcoin como alternativa Última
Após mais de 50 anos, o papel do dólar como moeda de reserva mundial é cada vez mais contestado. Assim, para muitas pessoas, o Bitcoin como criptomoeda descentralizada é visto pelos Bitcoiners como uma alternativa para esses problemas. Escassez de Bitcoin, com oferta total limitado a 21 milhões de unidades, contrasta com a criação monetária ilimitada de moedas fiduciárias.
Os Bitcoiners veem o Bitcoin como uma forma de preservar o valor a longo prazo e resistir à inflação.
Esta convicção é reforçada pelos acontecimentos económicos das últimas décadas e pelo impacto da política monetária expansiva. Isto com a crise do COVID a ser ainda mais intensa, levando cada vez mais pessoas a interessarem-se pelo Bitcoin, como alternativa legítima.
Devido à adoção cada vez maior do bitcoin em todo o mundo e principalmente nos países mais desfavorecidos pelo sistema FIAT, podemos estimar que é uma alternativa cada vez mais legítima.
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